
Por José António Carvalho
Um ano depois, comunidade da Cova da Piedade recorda o pontificado com emoção e gratidão
A saber, um ano após a morte do Papa Francisco, a paróquia da Cova da Piedade reuniu-se esta terça-feira para celebrar o seu legado. Na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, a comunidade encheu o espaço numa eucaristia de ação de graças presidida pelo cardeal D. Américo Aguiar, bispo de Setúbal, acompanhado por vários sacerdotes da diocese.
Assim, logo no início da homilia, D. Américo partilhou um sentimento comum entre muitos dos presentes: a estranheza deste primeiro aniversário. “Parece que passou muito rápido, mas ao mesmo tempo parece que ainda foi ontem. É um ano estranho”, confessou.
O momento da notícia e o choque inesperado
Desta forma, o cardeal recordou o instante em que soube da morte do Papa Francisco. Estava a tomar o pequeno-almoço com o patriarca emérito D. Manuel Clemente quando recebeu a notícia por telefone. A reação foi imediata e marcada pela incredulidade.
“Disse em voz alta: o Papa morreu. E o D. Manuel deixou cair o que tinha na mão. Não quis acreditar. Só quando ligámos a televisão é que percebemos que era verdade.”
Por isso, o impacto foi ainda maior porque, dias antes, Francisco tinha surgido na varanda de São Pedro e circulado pela praça, num esforço visível que, na altura, poucos interpretaram como um adeus.
“Hoje percebemos que era a despedida do seu pontificado”, sublinhou D. Américo, acrescentando que é precisamente por esses gestos, palavras e entrega que a Igreja continua a dar graças.
As “surpresas de Deus” e o legado de Francisco
Nesse sentido, ao refletir sobre estes momentos, o bispo de Setúbal traçou um paralelo com a renúncia do Papa Bento XVI, há mais de uma década. Para D. Américo, ambos os episódios mostram como Deus surpreende.
“São as surpresas de Deus. O melhor é confiar e colocar tudo nas suas mãos”, afirmou.
“Somos todos irmãos”
No centro da mensagem de Francisco, destacou-se uma ideia simples, mas poderosa: a fraternidade. Uma mensagem repetida ao longo do pontificado e que ganhou força durante a Jornada Mundial da Juventude de Lisboa 2023.
“A sua grande preocupação foi lembrar-nos que somos todos irmãos. Todos. Cada um com as suas fragilidades, qualidades e diferenças. Mas isso não apaga aquilo que somos uns para os outros”, disse.
Assim, segundo D. Américo, é precisamente esta visão que explica a marca profunda deixada pelo Papa Francisco na humanidade. “Sentimos necessidade de estar aqui, um ano depois, para agradecer. Para agradecer a Deus e para cumprir aquilo que ele nos pediu: que rezássemos por ele.”
Uma oração que continua
O cardeal revelou ainda que tinha feito uma promessa pessoal ao Papa Francisco: rezar por ele. Agora, acredita que essa ligação se mantém, ainda que de outra forma.
“Hoje estamos aqui para retribuir essa oração, com a certeza de que ele continua lá em cima a interceder por todos nós”, afirmou, num tom próximo e emotivo.
Olhar para o futuro com esperança
Contudo, durante a celebração, a assembleia foi também convidada a rezar pelo sucessor de Francisco, o Papa Leão XIV, atualmente em visita à África, nomeadamente na Guiné Equatorial.
Com o humor que o caracteriza, D. Américo deixou uma nota descontraída, antes de regressar ao essencial: a coragem de anunciar o Evangelho.
“Que não tenha medo. É isso que o Senhor nos pede”, sublinhou.
Uma Igreja próxima do “Portugal real”
Por fim, esta celebração integrou-se na visita pastoral que D. Américo Aguiar está a realizar à paróquia da Cova da Piedade, iniciada no domingo passado e que decorre até 27 de abril.
Nos últimos dias, o cardeal percorreu hospitais, lares, escolas e associações locais. No terreno, encontrou aquilo que descreve como o verdadeiro retrato do país.
“É o Portugal real. E é muito melhor do que o Portugal das notícias”, concluiu, deixando uma mensagem de esperança e reconhecimento pelo trabalho silencioso de tantas comunidades.
Fonte: Diocese de Setúbal



