
Por José António Carvalho
O artista português apresenta uma visão profundamente emocional da capital numa mostra que já reúne elogios de figuras públicas, colecionadores e amantes de arte.
Há cidades que se observam. E há cidades que se sentem. Lisboa pertence claramente à segunda categoria. A sua luz, tantas vezes descrita como única no mundo, serve agora de matéria-prima à nova exposição de Xicofran, intitulada “A Luz de Lisboa”, patente na **CNAP – Clube Nacional de Artes Plásticas.
Dessa forma, nesta nova mostra, o artista português afasta-se parcialmente do universo do jazz que o tornou reconhecido para mergulhar numa abordagem mais emocional, poética e cromática da capital portuguesa.
Em entrevista exclusiva ao Twenty4news, Xicofran explica que este era um desafio antigo que há muito desejava concretizar.
“Desde que me conheço como pessoa e pintor que adoro pintar Lisboa. Apesar de ter ganho notoriedade no jazz, sentia há muito tempo vontade de fazer algo fora do comum e suavizar essa ligação. Lisboa é do mundo e é nossa. Tenho uma paixão enorme pela luz que incide sobre a cidade e quis finalmente abraçar esse desafio.”
Uma Lisboa que não se vê, sente-se
Assim, mais do que retratar a cidade, Xicofran interpreta-a. A sua Lisboa não é literal nem documental. Surge transformada pela emoção, pela memória e pela subjetividade artística.
“Este azul cobalto que uso em algumas obras não é um azul que o comum visitante de Lisboa veja. É o azul que eu sinto no final do dia. É um noturno que crio através da minha alma, misturando rio, mar e cidade numa só linguagem cromática.”
Por isso, segundo o artista, a construção das obras nasce de um processo quase instintivo: “é quase como se pintasse de olhos vendados. Deixo brotar da alma as imagens que sinto. Tal como acontece na fotografia quando sabemos exatamente o momento certo para captar uma imagem. Muitos chamam-lhe a alma do artista.”
Dina Aguiar: “Era um quadro que eu gostaria de ter em minha casa”
Entre os visitantes presentes na exposição esteve Dina Aguiar, que não poupou elogios ao trabalho do pintor.
Conhecedora do percurso de Xicofran através de várias exposições coletivas, destacou ao Twenty4news a identidade singular do artista: “na sua arte aprecio muito a espontaneidade, a pintura gestual e a cor que dá à cidade de Lisboa entre o realismo e o abstracionismo. Era um quadro que eu gostaria de ter na minha casa”, afirmou entre risos.
Por isso, para a comunicadora, Xicofran construiu já uma assinatura visual perfeitamente reconhecível: “na identificação dos seus quadros, o Xicofran ganhou o seu espaço quer no jazz quer sobre a cidade de Lisboa.”
Dina Aguiar aproveitou ainda para lamentar a falta de apoio estrutural à cultura em Portugal: “Portugal não apoia os artistas portugueses como deveria. Falta sensibilidade na divulgação e nas iniciativas que poderiam agregar mais valor humano. Os artistas emergentes são os que mais sofrem por não conseguirem viver da arte.”
Colecionadores italianos rendidos à “luz de Lisboa”
Também presentes na exposição estavam Verónica e Fabrizio, casal italiano radicado em Portugal há cerca de sete anos e já colecionador de obras de Xicofran. Os dois conheceram o artista através das redes sociais e confessam ao Twenty4news estar completamente rendidos ao seu trabalho: “temos já quadros do Xicofran que representam de forma extraordinária a luz de Lisboa. Somos apreciadores de arte, especialmente daquela que retrata a capital portuguesa.”
O casal sublinha ainda a sensibilidade artística do pintor e considera que o seu talento merece reconhecimento internacional: “a sensibilidade e a luz com que cria as suas obras colocam-no ao nível dos melhores.”
A pintura como verdade interior
Durante a entrevista, Xicofran refletiu também sobre a frase que tantas vezes associa ao seu processo criativo: “tudo o que é criado numa tela é o refúgio da verdade.”
Para o artista, cada quadro representa um espelho emocional: “talvez seja o refúgio da nossa verdade. Quando olho para uma tela minha vejo várias verdades que são só minhas. São o reflexo das minhas vivências, daquilo que sou e da forma como sinto o mundo.”
“Os artistas continuam esquecidos em Portugal”
Contudo, nos mais de trinta anos de carreira, Xicofran deixou também uma crítica contundente ao panorama cultural português.
“É triste saber que, mesmo depois de anos de carreira, notoriedade e prémios, muitos artistas continuam sem apoio digno. As instituições deviam estar muito mais atentas e tratar a Cultura como um bem precioso.”
Ainda assim, deixa uma mensagem de esperança para quem começa: “aos jovens artistas digo apenas uma coisa: nunca desistam daquilo em que acreditam. Não há nada melhor do que fazer aquilo que nos faz felizes.”
A filosofia de um criador
No final da conversa, o Twenty4news lançou ao artista uma pergunta simbólica: “O que é mais importante, o peso do martelo ou a qualidade do prego?”
A resposta espelhou a visão de vida de Xicofran: “de uma forma filosófica, acho que não ia pela qualidade do prego. Tendo um martelo bom ou mau na vida, conseguimos pregar qualquer coisa que queiramos alcançar.”
Uma das exposições culturais a visitar em Lisboa este mês
Patente até 12 de maio de 2026, “A Luz de Lisboa” afirma-se como uma das exposições mais marcantes da temporada cultural lisboeta, reunindo emoção, identidade urbana e uma leitura artística singular sobre a capital portuguesa.
Por fim, mais do que uma coleção de quadros, esta é uma declaração de amor visual à cidade. Uma Lisboa reinventada através da alma de quem a pinta.



