
Por José António Carvalho
O último dia da ModaLisboa “Pebbling”, no Pátio da Galé, terminou sob forte descontentamento. O desfile de Nuno Baltazar, inserido na programação de domingo, ficou marcado por longas filas, demasiado tempo de espera e uma crescente irritação entre os presentes.
Mais do que um simples atraso, o que se viveu no recinto foi uma experiência desgastante. Muitas pessoas esperaram demasiado tempo para entrar. Outras ficaram retidas antes do acesso à passerelle. Assim, o ambiente de expectativa deu lugar ao cansaço e à frustração.
Numa semana de moda, o tempo conta. Conta para o público, para a imprensa, para os fotógrafos e também para os criadores que se seguem na programação. Por isso, quando a organização falha no ritmo, todo o evento perde força.
Longas filas e espera excessiva marcaram o ambiente
A sensação entre muitos dos presentes foi clara: faltou respeito por quem se deslocou ao Pátio da Galé para assistir aos desfiles. As demoras sucessivas tornaram a entrada num processo lento e penoso. Além disso, a espera prolongada acabou por comprometer a experiência de quem esperava uma noite fluida e bem organizada.
Num evento desta dimensão, o cumprimento dos horários não é um detalhe menor. Pelo contrário, é parte central da experiência. Quando esse equilíbrio falha, instala-se o desconforto. E, neste caso, esse desconforto foi visível antes mesmo de o desfile começar.
Uma coleção com conceito forte, mas sem impacto na passerelle
Nuno Baltazar apresentou I DO! DO YOU? (THE OTHER SIDE), proposta integrada na coleção #NBB01 e parte da primeira linha NUNO BALTAZAR BRIDAL. A ideia passa por romper com os códigos mais tradicionais da moda nupcial.
A coleção procura transformar o vestido de noiva num território de questionamento, identidade, contemporaneidade e liberdade criativa. Em vez de seguir o imaginário clássico do casamento, o designer aposta numa visão mais dramática, mais íntima e mais inquieta.
No plano conceptual, a proposta tem ambição. Há vontade de subverter símbolos, formas e significados. Há também um discurso que procura abrir novas leituras sobre o universo bridal. No entanto, um conceito forte precisa de resultar em passerelle. E foi precisamente aí que surgiram as maiores reservas.
Desfile foi visto como enfadonho e amorfo
Segundo a perceção generalizada entre quem assistiu, o desfile ficou aquém da expectativa. A opinião dominante apontou para uma apresentação enfadonha, amorfa e pouco envolvente. Em vez de criar impacto, o momento arrastou-se. Em vez de surpreender, deixou uma sensação de frieza.
Por um lado, existia uma intenção clara de rutura. Por outro, faltou intensidade visual e emocional. Faltou ritmo. Faltou presença. Sobretudo, faltou transformar o discurso criativo num verdadeiro momento de moda.
Quando um desfile se apresenta como manifesto, precisa de se afirmar com convicção. Caso contrário, o conceito fica preso ao texto de apresentação e não ganha vida diante do público.
Atraso prejudicou também os criadores seguintes
A crítica não se limita à coleção. Vai além disso. Num calendário apertado como o da ModaLisboa, qualquer atraso tem impacto direto no restante alinhamento. Por isso, a demora sentida neste desfile não afetou apenas quem estava à espera para entrar.
Também os colegas que se seguiam na programação saíram prejudicados. Equipas técnicas, convidados, jornalistas e fotógrafos dependem de horários minimamente estáveis para acompanhar o evento. Quando um desfile derrapa em tempo e organização, o efeito faz-se sentir em cadeia.
Nesse sentido, o episódio foi visto por muitos como uma falta de consideração não só pelo público, mas também pelos restantes profissionais envolvidos.
Liberdade criativa não pode servir de desculpa para desorganização
A ModaLisboa é um espaço de criação, risco e expressão autoral. Esse papel é importante e deve ser valorizado. No entanto, a liberdade criativa não pode ser confundida com desorganização ou desrespeito pelo tempo dos outros.
Questionar convenções faz parte da moda. Mas há uma base que não pode falhar. O público deve ser respeitado. Os horários devem ser cumpridos com o maior rigor possível. E a experiência de assistir a um desfile não pode transformar-se numa prova de resistência.
No caso de Nuno Baltazar, ficou a ideia de que a proposta queria dizer mais do que realmente conseguiu mostrar. E, quando isso se junta a filas longas, espera excessiva e um ambiente já saturado, a leitura final torna-se ainda mais negativa.
Um último dia abaixo da expectativa
O último dia da ModaLisboa “Pebbling” prometia encerrar a edição com força. No entanto, o desfile de Nuno Baltazar acabou por ficar associado a um dos momentos mais criticados da noite.
Entre atrasos, falhas na gestão de entradas e uma apresentação que não convenceu grande parte dos presentes, o resultado foi um encerramento marcado pela desilusão. E essa desilusão deixou uma pergunta no ar: até que ponto pode a moda pedir tempo, atenção e paciência ao público sem depois corresponder com a mesma medida de rigor e impacto?



