
Por José António Carvalho
Chamas devoram sem piedade
Importa referir que desde o início de agosto de 2025, as gentes de Portugal vivem um pesadelo que parece não ter fim. Por essa razão, o calor sufocante e o vento agreste alimentam incêndios de uma violência rara, transformam serras e vales em cenários de cinza. Além disso, há aldeias onde o som dos sinos foi substituído pelo eco das sirenes e pelo rugido dos helicópteros. Enquanto isso, famílias inteiras abandonam as suas casas à pressa, e levam apenas o essencial, sem saber se voltarão a encontrar de pé o que deixaram para trás.
Milhares de hectares ardidos de norte ao centro
Como resultado, mais de 30 mil hectares arderam só neste mês. Uma ferida aberta no território muito maior do que no mesmo período do ano passado. Consequentemente, no total do ano, perderam-se cerca de 75 mil hectares, e mais de metade desta destruição aconteceu nestas duas regiões. No Norte, arderam 30 mil hectares em quase três mil ocorrências. No Centro, a paisagem mudou em milhares de hectares, marcada a cinzento. Em Arganil, mais de 5 mil hectares já foram consumidos, várias aldeias evacuadas e centenas de bombeiros continuam na linha da frente, muitas vezes com o fogo à porta. Em Trancoso, há dias que as chamas não dão tréguas e já roubaram mais de 14 mil hectares de floresta e campo.
Má gestão das florestas e mão criminosa
Apesar disso, no terreno, quase 4 mil bombeiros enfrentam sete grandes incêndios ativos, numa corrida contra o tempo e contra a força da natureza. Infelizmente, este inferno não nasce só do acaso. Resulta da falta de limpeza e gestão das florestas, a monocultura do eucalipto, o abandono do interior e a mão criminosa de alguns que criam um terreno fértil para o desastre. Como resultado, as temperaturas extremas e as ondas de calor prolongadas fazem o resto, tornando o combate quase impossível em certos momentos.
No entanto, entre fumo, cinzas e o cheiro a madeira queimada, há histórias de vizinhos que se ajudam, de bombeiros exaustos que não desistem e de comunidades que, apesar do medo, resistem. Por outro lado, o sentimento comum é claro. Em suma, é preciso agir já, com medidas sérias e estruturais, para que o verão deixe de ser sinónimo de destruição e medo. Para quem lá vive, cada dia tem sido uma prova dura de coragem e sobrevivência.



