Entre o silêncio, as memórias e um voo inesperado

Lisboa acordou coberta por um tom sereno, quase suspenso. Assim, no Mosteiro dos Jerónimos, o país reuniu-se para se despedir de Francisco Pinto Balsemão — o homem que acreditou que a liberdade se escreve, se diz e se vive.
A cerimónia fúnebre, marcada por grande emoção e respeito, contou com a presença do Presidente da República, do Primeiro-Ministro, do Presidente da Assembleia da República e de muitas outras figuras públicas. Desta forma, à política, à comunicação social e à cultura, juntaram-se centenas de cidadãos anónimos, num gesto silencioso de gratidão.
Do mesmo modo, dentro do mosteiro, o ambiente era de profunda reverência. As palavras do cardeal patriarca emérito, D. Manuel Clemente, ecoaram com suavidade nas abóbadas antigas. Lembraram a dimensão humana e cívica de um homem que sempre acreditou na força da verdade e no poder do diálogo.
Finalmente, quando o caixão foi colocado no carro fúnebre, a família uniu-se num abraço demorado — daqueles que dizem tudo o que as palavras já não conseguem.
Foi então que o inesperado aconteceu: um bando de periquitos-de-colar sobrevoou o pátio dos Jerónimos durante alguns segundos. Vieram do nada e desapareceram no céu, deixando todos os presentes num breve instante de espanto e silêncio.
Coincidência ou não, aquele voo leve e improvável pareceu uma despedida da própria natureza — um gesto simbólico, como se o mundo quisesse também agradecer.
O cortejo seguiu depois para Cascais, passando pelas sedes do Expresso e da SIC — duas das maiores heranças que Balsemão deixou à democracia portuguesa. Foi um adeus simples, sereno e profundamente humano — à altura de quem sempre viveu com discrição e grandeza.
Francisco Pinto Balsemão parte, mas o seu exemplo permanece: o de um homem que acreditou que a liberdade é o bem mais precioso de um país e que informar é, antes de tudo, servir.



















